4.7.10

Chá

A chaleira apitava com a água fervente. O vapor se espalhava pela cozinha pequena e seus olhos viravam em direção à porta do quarto. Do outro lado, sobre a pia, a xícara vazia aguardava. Os pés gelados incomodavam, o cobertor não cumpria seu papel. A garganta arranhava. Ele se levantou e se arrependeu, sua cabeça quase explodiu e seus joelhos mal o sustentaram. Ele vacilou e o telefone caiu, do outro lado a voz abafada perguntou se estava tudo bem. Não deu bola, respirou fundo e foi em direção à porta. Ela cedeu ruidosa. Os olhos viraram em direção à pequena nuvem que vinha do fogão. Mais uma vez a respiração foi profunda, algumas folhas na xícara e segundos depois a água ficava escura. Apenas o cheiro da infusão foi suficiente para clarear as idéias. O primeiro gole redentor. A voz do telefone continuava preocupada. O segundo gole lhe retirou as preocupações que o inverno lhe trouxe. Pela janela dois raios de sol entravam envergonhados. O terceiro gole lhe permitiu vê-los. Deu quatro passo em direção ao telefone de voz assustada:

- Estou melhor.

1.7.10

Em curvas de tinta

- É só sexo - Disse ela. - Não é por isso que será pra sempre.
Ele a olhou com admiração. Não pensara no que fazer diante dessa reação. Na realidade não esperava essa reação.
Depois de três encontros, sempre muito alegres e terminados na cama. Ele pensou em avançar na relação e propôs algo mais sério. Ela continuou:
- Não é pela responsabilidade intrínseca a um relacionamento mais sério. É apenas a vontade de terminar todos os nossos encontros sob os lençóis, com muitas risadas e sem nenhuma paranóia. Está ruim?
- Não! - Ele se levantou da cama, com o lençol ainda grudado na pele suada.
Para ele seria normal, a essa altura da relação, estarem namorando. Sempre fora assim.
- Estamos falando de pele, de calor, meu querido. - Disse-lhe, passando a mão em seu rosto e beijando-o. Enquanto ele a segurava pela cintura ainda nua e a levantava. E ela, "abraçando-lhe" a cintura com as pernas, falou em tom baixo:
- Você não precisa dizer, durante o seu dia, sob a luz do sol, que sou sua namorada, para me ter de noite sob seu lençol.
Ele sorriu. Falou do desejo que ela lhe despertava. E de todos os desenhos que fez em sua mente enquanto observava sua pele suada e seu corpo em movimento. Contou-lhe sobre todas as fotos que tinha guardado em sua imaginação, dela desfilando nua pelo quarto, rindo enquanto bebia, tomando banho envolta pelo vapor da água quente.
Ela sorriu. Falou da primeira noite em que dormiram juntos e de como o olhar dele fazia ela se sentir nua. Contou que quis pular nele naquela noite, sem vergonha das pessoas ao redor. E disse como ela adorava quando tremiam-lhe as pernas cada vez que ele a fazia explodir de prazer.
E mais uma vez terminaram a discussão sobre o colchão.

Dois dias depois, ela ligou:
- Estou indo para a Espanha. Desculpe, querido.
Ele, assustado, incrédulo não aceitou. Gritou ao telefone. Ela calma, chorando e tentado não ser percebida, falou:
- Desculpe... Eu disse que não seria para sempre. Há anos planejo minha mudança e você será a maior lembrança que levo comigo.
- E os nossos lençóis? - Soluçando, ele resmungou. - Nunca mais serão testemunhas das suas pernas trêmulas?
- Infelizmente eles foram testemunhas de momentos fugazes, nossos momentos. - Agora sem conseguir conter os soluços. - Guarde minhas fotos em sua memória. Me desenhe nas suas paredes, assim como fez em sua imaginação.
Ele ouviu o telefone desligar do outro lado.

Depois de três dias escuros de quase loucura, ele levantou. Olhou para as paredes de sua casa e os pincéis substituíram suas mãos, por duas longas semanas. Ele se mudou, trocou de emprego, estudou novas idéias. Hoje respira novos ares.

A nova dona de sua antiga casa não pintou as paredes. Deixou lá os retratos de um amor que ela não conheceu. E pensa, hoje, sempre que para por vários minutos a observar os desenho nas paredes. Que sentimento é esse, que consegue pintar com tintas mundanas tais curvas sagradas? Ela não acreditava ser possível expressar com tanta perfeição, em curvas de tinta, tamanha admiração de uma pessoa por outra. Sentia inveja, no fundo sabia disso. Mas tinha uma certeza. Algo tão intenso, não poderia durar para sempre.

28.6.10

Quarta-feira

O dia começou devagar, assim como são todos durante a manhã. Depois de um almoço feito rapidamente sem muito cuidado e pouco nutritivo, eu fui pra frente da televisão. Então, vendo as notícias, eu soube que o dia seria no mínimo chato. E ele foi entediante com classe!
As horas vespertinas morreram lentamente, o calor era o que permanecia. Depois de uma longa espera, meu amigo chegou em casa, logo após a notícia de que não haveria aula. A decisão de ir à festa foi ponderada por horas. Já que acreditávamos que assim como o dia, a festa seria maçante.
Fomos, à pé, em quatro amigos. A frente da festa não colaborava para a nossa decisão de estar ali. Tão pouco o preço do ingresso. Depois de alguma discussão sobre algum lugar melhor e a constatação mais que óbvia de que não haveria nada aberto numa noite de quarta-feira além daquele local, entramos.
A música lá dentro não era a melhor. A festa no começo parecia prometer uma noite de arrependimento. Meus olhos passearam pelo salão, gravando várias curvas femininas, como sempre, aquelas que desenhavam gravuras no ar enquanto dançavam ficaram na memória por mais tempo. Tempo suficiente para serem apagadas pelos goles de cerveja. Aqui é importante ressalvar: nunca mais serão tantos!
Em um instante de gargalhada, em frente ao bar, ela passou pela primeira vez. Dançando! O olhar dirigido à mim foi retribuído, passou de um simples encontro de íris para algo mais sexy instantaneamente. Um breve sorriso no canto da boca e o olhar que desceu e subiu rápida e reciprocamente, confirmou ambas intenções. Ela estava de branco, uma blusa jogada sobre o corpo e uma calça jeans que contornava suas pernas de forma obra-primática. Aos pés um salto-alto preto, sobre o qual estava escrito de forma um tanto sofisticada a palavra Rock!
Após a rápida troca de olhares ela continuou seu caminho, eu, praticamente um floco de algodão que agora pairava a alguns centímetros do chão, atônito. A noite seguiu e os encontros visuais se repetiram. Sempre na mesma intensidade e no mesmo padrão. Aquilo mexia comigo como a agulha de um alfaiate cego. Depois de tantos olhares, até meu amigo se sentiu incomodado e chegou a dizer: Quer que eu te pague para ir falar com ela? Vai lá! Não foi necessário receber nenhuma quantia para que me decidisse ir falar com ela. Respirando fundo e tomando mais um gole a convidei para dançar. Ela aceitou, de uma forma estranha. Nós dançamos juntos, não por muito tempo, mas o necessário para nossa pernas se tocarem, tímidas mas intencionalmente. Dançamos o suficiente para eu saber o nome dela. Então eu praticamente me senti chutado. Ela simplesmente se afastou, deu um, dois, três passos para trás e me deixou de frente para o nada, sozinho, ali, praticamente perdido com minhas intenções. Assim, pensei, eu sabia, a noite vai ser uma merda, vou pegar outra cerveja.
No caminho para o bar pude ver as risadas de meus amigos e dei de ombros, que poderia fazer? Maior que o susto de ser deixado sem aparente razão no meio da dança, foi o susto de após alguns minutos perceber que ela continuava me olhando, me provocando, pensei eu.
A noite não esperava, as risadas aumentavam, sugerindo que a festa não se estenderia por muito mais tempo. Os amigos passavam, me cumprimentavam e ela me olhava. Quase uma hora depois, e mais uma tentativa de aproximação frustrada, onde ela me fez andar quase o salão inteiro para ter meu beijo recusado, eu pensei, desisto. Olhei para o lado. Sentada, sozinha, ela me olhava novamente.
Não sei qual o motivo exato. Mas foram necessárias três tentativas, três investidas... Talvez o número três seja uma conjunção perfeita. Três contatos físicos e eu finalmente consegui beijá-la. Por horas, antes de irmos juntos, embora. Naquela manhã de Quinta-feira.

18.6.10

Não quero mais a responsabilidade

Não! Não quero a responsabilidade de cuidar de mim mesmo. Não quero mais a necessidade de cuidar de mim mesmo. Prefiro deixar ao tempo, à magia e ao mundo.
Não quero ter que insistir nas conlcusões óbvias das esquinas. Nem corroborar com a insanidade do cotidiano. Alimentado por xícaras e mais xícaras de café.
Quero chutar a porta do meu quarto logo após acordar e gritar que eu tenho direito ao mundo que cresce e muda lá fora!
Não quero mais insitir pelo beijo, me aceite na primeira vez! Eu não irei mudar em trinta segundos. Serei tão imperfeito quanto era ao te cantar. Não acredito que precise da minha insistência para isso. A briga será eterna, mesmo que não queiras.
Quero ser absolvido da pena de te olhar e respirar fundo logo em seguida. E sem dúvida alguma, quero não ser culpado pelos momentos distantes que teremos.
Não quero mais a responsabilidade de sonhar com você e não te contar, nem a responsabilidade de te contar o que sonhei, todas as manhãs.

Quero você a me cuidar. Quero os sonhos em que você está. Aliados a mim ou párias do meu estar. Quero a tua magia a me cercar e fomentar minhas fantasias. Com seus lábios, mãos e pernas.
Quero te ver voltando do banho nas minhas manhãs e nas tardes de domigo. Rindo, perguntando: O que vamo fazer hoje?
Vamos rir, ver como o mundo mudou e nos aguarda, para que possamos colocar um pouco de nós nas tolnalidades verdes e azuis que escolheu!
Quero ser capaz de estar sempre ao seu lado, mesmo distante e impotente, respirando fundo após correr muito e te abraçar, como se fosse o meu último abraço.

Quero sonhar com você todas as noites. Sempre ao seu lado, para que eu possa te contar nossas aventuras oníricas luxuosas.

12.6.10

Aquele

Aquele que um dia foi feliz. Aquele que viu através do véu da noite e sentiu o seu frio cadavérico. Aquele que disputou a atenção da mais bela e venceu, foi acariciado e afagado com todo o respeito que uma noite fria pode propiciar. Dejelho-lhe a maior das graças, a maior das crenças e a mais perfeita jornada!
Seja fiel àquela noite sagrada e seus átomos quase estáticos. Frios como o olhar das meretrizes que me esperam, impacientes com minha indecisão pela vida.
Não se sinta menor ou maior que aquilo que lhe foi ofertado. Saiba respeitar as posições que te aceitam e seja o responsável por amplificá-las. Nunca diga que o que se vê é perene aos olhos, toda paisagem é diluível. Assim como qualquer opinião.

"Deixai que os fatos sejam fatos naturalmente, sem que sejam forjados para acontecer. Deixai que os olhos vejam os pequenos detalhes lentamente, deixai que as coisas que lhe circundam estejam sempre inertes, como móveis inofensivos, para lhe servir quando for preciso e nunca lhe causar danos. Sejam eles morais, físicos ou psicológicos."

Alegria! Nas noites cinzas e escuras. Como aquele que é infertil ao sorriso e à dor.

6.7.09

Vamos pacificar o mundo
Construir idéias
Lotar o carro de pensamentos
e bater no primeiro poste

Vamos consumir a maçã do nada
Sexualizar nosso amor
Por cigarro e poder

Deixar a fumaça procurar nossa janela
Liderar nosso "Eu" por terras conhecidas

Descobrir o gosto do gelo
E deixar nosso praladar fraco, frágil

Limitar os pensamentos ao gosto do amor e do sexo
Oportunizar as crenças às asas

O Show

Parte I

Ontem fui a um show. Um grupo chamado Five Points Star tocou no teatro da cidade, composto por duas mulheres e um rapaz. Entreguei meu ingresso à moça na bilheteria, uma pessoa simpática, tão calma que mesmo se o teatro explodisse ela não sairia de onde estava até que alguém a resgatasse. O teatro estava vazio, parecia que o grupo não era muito conhecido. Como eu cheguei ali? Bom, era uma noite de segunda-feira, primeiro dia das férias letivas e quando se está sozinho nessa situação você dá um jeito de fazer algo. Assim, pude escolher um assento bem próximo do palco, mas não tão próximo que eu tivesse que ficar girando a cabeça para os lados na tentativa de ver os detalhes no palco, uma ótima visão de tudo eu tive dali. Pouco tempo depois que me sentei as luzes se apagaram, olhei para os lados e na penunbra vi que o espetáculo seria para poucos. As cortinas se abriram e surgiu um piano, à frente dele estava uma menina, com os cabelos louros trançados e presos para trás da cabeça. Ela tocava o piano de forma calma, lenta e precisa. Ela usava luvas finas sem dedos, rendadas, nergas como o esmalte de suas unhas e faziam com que sua mão contrastasse maravilhosamente com as teclas do piano, cada toque parecia um suave atentado ao branco do marfim utilizado para sua fabricação. Seu vestido era tão escuro qual suas unhas e ao redor dos olhos sua maquiagem era dourada, uma obra-prima viva iniciava a apresentação. Houve um crescendo em seus acordes, acompanhado pelas luzes no limiar do palco e dos instrumentos de percussão, tocados pelo rapaz da banda de forma tão suave que pareciam não estar ali desde o começo. Ele mal aparecia devido a posição dos holofotes, era como se uma sombra trouxesse o retumbar, os estampidos e estalidos do submundo para domá-los em uma calma melodia, apenas por uma noite. Então, surgiu das mesmas sombras, executando uma nota aguda, com sua voz envolta por seus lábios vermelhos como um alçapão de lava, a terceira integrante do grupo, não era muito alta, usava um vestido dourado que nos mostrava com perfeição todo o seu desenho. Que curvas! A cada passo elas tomavam novas formas e se encaixavam em sua voz, como se ela cantasse apenas para ela, como se qualquer outra coisa no mundo apenas existisse sem lhe interferir. Seus cabelos ruivos em cachos balançavam como que vivos e seus cílios ornavam os olhos negros como uma coroa que determina uma princesa. Os braços nus, com pele clara e seu rosto desenhado por mãos de deidades a transformavam em uma lua crescente naquele palco de céu escuro.

1.7.09

Vermelho

Um coral encandecido se agitava em sua cabeça. Seguindo um ritmo suave e sem demasiada ansiedade, cada voz se provava única, cada uma com sua própria cor, mesmo nas horas mais escuras.
Não foi suficiente o frio da madrugada, preparado por noites nas mais altas montanhas, para deixá-lo rijo, insensível. Bastou apenas que ela lhe dissesse que o não queria.
Congelando ou não, ele foi capaz de se erguer como vulcão. Aquele que sempre soubera ser, mas nunca tivera coragem de mostrá-lo. Sempre temeu que alguém pudesse ser ferido. Mas no momento em que seu companheiro de batalha e sofrimento lhe deu aval, não podia mais contê-lo, apenas explodir!
Foi necessário apenas uma boca, vermelha como seu sangue, para excitá-lo. Mesmo perdido entre o verde e o negro da floresta ao seu redor, ele via, pulsante seus lábios e os desejava, mesmo sabendo que poderia nunca tê-los.

Um passo, dois sonhos
Você deitada sob mim e eu trêmulo
Viciado em seus fios e costuras
Dependente de sua estatura
Completamente cercado